terça-feira, 16 de setembro de 2008

Oligarquia Sarney: Derrota Final de um Grupo Político?

Artigo retirado do site do Centro de Mídia Independente

A população do Maranhão está cansada das manipulações, dos insultos e da baixa política que caracterizaram as ações desse grupo durante muitos e muitos anos. Além, obviamente, da falta de interesse público, do patrimonialismo eda falta de compromisso com os interesses maiores do Maranhão.

O povo maranhense cansou ainda da pobreza, da exclusão social, do analfabetismo, da mortalidade infantil, do pior IDH do Brasil, da menor renda per capita entre todos os estados. Cansou da falta de colégios, do desleixo com a educação e a saúde, da ausência de água nas casas, das casas de taipa cobertas de palha, da falta de oportunidades para os jovens. Cansou de ver que os donos do grupo boicotavam a vinda da refinaria, da siderúrgica que estava certa de vir com a assinatura dos documentos em Shangai, e passou a ser postergada para quando Roseana Sarney assumisse o governo, como era o desejo de seu pai, José Sarney. Cansou de ver que eles tentavam tirar o corpo fora do boicote à vinda da siderúrgica, tentando jogar a culpa do atraso nos governos contrários a eles e que lutaram muito para que esses empreendimentos viessem para cá.

Da mesma maneira, o grupo comandado por Sarney lutou nos subterrâneos do Congresso para que não fosse aprovado o empréstimo do Banco Mundial para combate a pobreza. Até que tiveram que botar a cara de fora na histórica sessão do Senado que aprovou o projeto. Esse processo foi a gota que faltava para transbordar finalmente a indignação com a atitude contrária ao Maranhão que o grupo sempre usou nos assuntos fundamentais do estado.

Esses fatos, denunciados à época, foram fundamentais para a formação do ambiente contrário aos Sarney que veio a tona em 2006 na derrota de Roseana Sarney nas últimas eleições para governador, fato histórico e fundamental para o futuro do Maranhão.

A derrota gigante foi mascarada pela atribulada vinda do presidente Lula a Timon , atendendo súplicas do senador José Sarney, que tentava salvar a sua filha da derrota humilhante, jogando todas as suas fichas no Lula. Burlaram a lei eleitoral e partiram para um frenesi de telefonemas com gravações do Lula pedindo votos para Roseana. A grande maioria dessas ligações foi dirigida a pessoas cadastradas no programa Bolsa Família, pessoas simples dos povoados. Um locutor treinado ligava para os orelhões e o primeiro que atendesse era instado a dizer o seu nome e em seguida o locutor dizia que era com ele mesmo que Lula queria falar. Entrava, então, a gravação do presidente, pedindo votos em Roseana e o estupefato incauto, paralisado pela gravidade do momento ouvia o locutor, em seguida, dizer -lhe que a candidata do Lula queria falar com ele. E entrava outra gravação, desta feita, com Roseana, que dizia que o presidente queria que ela fosse a governadora etc. Esse gesto político desesperado, aproveitando-se de pessoas de bem, simples, e esmagadas pelo inusitado, falando com o presidente da República, nos tirou, segundo pesquisas da época, mais de 200 mil votos. Não deu para Roseana ganhar a eleição, mas diminuiu o tamanho da surra.

Hoje está explícita a grande rejeição do grupo Sarney, principalmente nas grandes cidades, onde a população goza de melhor nível de instrução. Em São Luís, por exemplo, nunca o grupo Sarney foi tão desimportante. Nenhum candidato ligado ao grupo e concorrendo por partidos que ainda os apóiam ultrapassa 5% de intenção de votos, conforme pesquisas recentes já publicadas pelos jornais. Vejo pessoas como Cutrim, por quem tenho respeito, abandonado à sua própria sorte, porque acreditou na lábia dos mandões. Os outros todos foram para o sacrifício e, com grandes prejuízos políticos futuros, vêem seus prestígios minguarem rapidamente. Dizem até que Gastão, importante deputado, que não passa de 1% nas pesquisas , está na disputa para atender Sarney, que o colocou lá apenas para tentar evitar que Lula venha ao Maranhão participar de comícios com Flavio Dino. Que coisa!

O grupo Sarney está distribuindo um dossiê contra Jackson Lago aos jornalistas dos grandes jornais do sudeste, tentando criar uma imagem negativa sobre o processo de cassação que os mesmos patrocinam contra o governador. Como os jornalistas não conhecem a nossa realidade acabam por embarcar nessa canoa furada. A Folha de São Paulo deu espaço em suas páginas para o que acreditou ser verdade. Juntaram ao dossiê relatórios preliminares de auditorias, ainda sem contestação, de auditores do TCE, feitas em 2007. Lá é dito que muita coisa não tinha sido feita como uma Maternidade em Caxias, que já está inaugurada há algum tempo e é uma das melhores do Maranhão, por exemplo. O dossiê, como todos os que eles elaboram, são criados para iludir e formar impressão desfavorável de seus inimigos políticos. É fajuto como todos os outros.
Reaja, governador, faça o contra-dossiê e desmascare esse grupo.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

OBAMA DÁ O NÓ NOS FABRICANTES DO ÓBVIO

Artigo publicado no New York Times de 31 de Agosto de 2008

Parem as máquinas. Essa eleição, afinal, não é sobre os Clinton. Não é sobre as colunas da Acrópole construídas no estádio de Denver. Não é sobre a Paris Hilton ou o Hanoi Hilton [nome que era dado à prisão em que John McCain foi mantido, quando foi prisioneiro de guerra no Vietnã]. Embora a eleição ainda possa ser sobre Sarah Palin [a vice de McCain]. Depois de uma orgia semanal de melodrama fabricado, sob o rótulo de "cobertura da convenção" na TV, Barack Obama desceu no estilo deus ex machina -- sim, isso também é grego -- para deixar as coisas claras. Os Estados Unidos enfrentam muitas dificuldades, ele disse, para se entregar "a uma eleição importante sobre miudezas".

Como foi notado de forma universal, Obama fez o que devia em seu discurso. Ele jogou fora a messiânica "Mudança na Qual Podemos Acreditar" por um discurso político mais concreto de "Mudança que Precisamos". Ele enfiou seus dentes políticos de Chicago [onde começou a carreira] em John McCain. Obama ainda é um cara fraquinho mas sua determinação de encarar os adversários (estrangeiros e republicanos) o transformou em um Denver Bronco plausível [o time de futebol que é dono do estádio em que Obama discursou, em Denver].

Mas isso é uma surpresa? Dificilmente. Nenhum grande discurso de Obama -- sempre definido antecipadamente como decisivo, "o mais importante de sua carreira" -- foi um desastre; a maior parte foi de golaços, quando não gols de placa. O que é mais surpreendente é como a mídia se mostra surpresa com o replay de resultados idênticos. De fato, a desconexão entre a realidade dessa campanha e como é percebida e apresentada pela mídia já se transformou em um fato. A disfunção da mídia é, em si, uma janela sobre a dinâmica das Eleições 2008.

Na Convenção Democrata, assim como durante as primárias, quase todas as narrativas estavam erradas. Aquelas eleitoras de Hillary -- mostradas na TV como um bando que perseguia câmeras nas ruas de Denver -- repetiria Chicago 1968 [quando houve distúrbios civis]. Com o apoio tácito de Hillary, a votação se tornaria uma guerra. Bill Clinton causaria destruição ao assumir o palco.

Na TV, cada um destes balões foi inflado até o momento de ser esvaziado pela realidade, quando os fabricantes do óbvio [bloviators] mais uma vez se disseram surpresos, em choque com o inesperado. Eles foram pegos de surpresa quando descobriram que Obama não era muito negro para conseguir os votos dos brancos, não era muito branco para conseguir votos dos negros, não era inexperiente para ser derrotado pela incomparável máquina bem organizada e financiada dos Clinton.

Enquanto isso, o candidato conhecido como "Obama sem Drama", por causa de sua frieza, estava fabricando sua própria história escondido nos bastidores. Enquanto vários comentaristas decretaram que a convenção estava chata -- poucos ataques a McCain na primeira noite, um apoio muito fraco de Hillary na terça e assim por diante -- Obama manteve as cartas escondidas e construiu, passo a passo, uma história que atingiu o climax na quinta-feira. O arco dramático foi meticulosamente calibrado, como toda a estratégia política de Obama.

Sua campanha, diferentemente do que dizem os homens da fantasia na TV, conhecia a verdade. A pesquisa do New York Times/CBS News, conduzida na véspera da convenção, demonstrou que os democratas não estavam tão divididos quanto o Partido Republicano. Nos dois partidos, 79% dos eleitores apoiavam seus respectivos candidatos. Uma pesquisa simultânea, do Wall Street Journal/NBC News, também demonstrou que 79% dos democratas apoiavam Obama o que, como escreveu Amy Walter no National Journal, é um índice ligeiramente mais alto do que os de John Kerry e Al Gore na mesma época -- 77% --, na véspera das convenções que os indicaram.

No entanto, evidências empíricas não conseguem competir com o "clássico favorito" da mídia, que é a novela dos Clinton. Então, quando Hillary declarou há um mês que seus delegados precisavam de uma catarse, certamente estava criando a base para um "golpe" na convenção. Mas nunca foi de interesse de nenhum dos Clinton sabotar Obama. O discurso de Hillay na terça-feira, podemos argumentar o melhor de sua carreira, foi tanto sobre seu próprio desejo de reconciliação com os democratas de Obama -- dos quais um dia ela pode precisar -- quanto de liberação de seus cabos eleitorais. Os Clinton nunca deixam de pensar no dia seguinte.

O mais recente golpe de sorte dos democratas é que a campanha de McCain ficou tão desnorteada quanto a imprensa com a falsa narrativa sobre Hillary. McCain queria escolher seu colega democrata Joe Liberman para vice. Um ex-democrata que difere do Partido Republicano ao apoiar o aborto poderia ter reanimado a campanha do maverick com mais força do que Palin, que está rompendo o teto de vidro [que limita as mulheres] com um atraso de 25 anos em relação aos democratas [que lançaram Geraldine Ferraro como vice lá atrás]. Liberman teria alguma força para enfrentar a trinca Obama-Hillary-Bill que vai invadir o Sul da Flórida [uma referência aos eleitores judeus que podem decidir a eleição na Flórida, um estado decisivo. Lieberman é de ascendência judaica].

A única razão que levou McCain a ceder à direita religiosa e escolher Palin é que ele acredita que existe um exército de mulheres leais a Hillary que vai mesmo votar num candidato conservador simplesmente por ser mulher. É isso o que acontece quando você acredita no que aparece na TV. Não só a premissa é falsa, mas é tão sexista quanto a piada cruel que McCain conta sobre Janet Reno, Hillary e Chelsea Clinton [a piada diz que Chelsea é filha de Hillary com a ex-secretária de Justiça, que é muito feia].

Dado o comportamento da mídia até agora não há razão para acreditar que os cenários falsos não vão se repetir. A questão é: o que leva isso a acontecer? Distorção ideológica, vício nos Clinton ou a insistente atração pelo McCain não dá conta de explicar tudo. Os jornalistas também são americanos -- ainda que muitos leitores duvidem disso -- e nessa hora grave, em que está em jogo o futuro da nação, podemos estar tão perdidos como todos os outros.

Nós também ficamos ansiosos e temerosos com os tempos duros na economia e com a perspectiva de mudança. O You Tube, meio que transformou a cultura e a política, não existia quatro anos atrás. Em quatro anos é até possível que nem todos, mas muitos, dos jornais e revistas que cobrem essa campanha nem existam no formato atual, se existirem. Os três telejornais das três grandes redes e os departamentos de jornalismo como existem hoje podem ser extintos até lá.

É um sinal dos tempos que a rede CBS não fez um estúdio para a sua âncora, Katie Couric, em Denver. É sintomático que a rede CNN consistentemente bateu a ABC e a CBS na audiência da semana passada e, contando o fim-de-semana, também a NBC. Agora que a mídia está sendo transformada na velocidade comparável ao da duplicação de capacidade dos microchips, a ascendência do cabo pode ser tão breve quanto o reino da AOL. Andrew Rasiej, o fundador do Forum da Democracia Pessoal, que monitora a intersecção da política com tecnologia, diz que quando as redes de TV medem seu sucesso pela fatia da audiência, "elas ainda contam cavalos quando o mundo já está contando locomotivas". A internet, nas suas interações infinitas, está erodindo toda a mídia do Século 20.

A campanha de Obama faz tempo está a bordo destas locomotivas digitais. Sua habilidade em contar sua história longe do radar da grande imprensa explica em parte porque a ascensão de Obama tem sido muitas vezes subestimada. Até agora estamos incertos de seu tamanho. A audiência extraordinária de Obama na TV, quinta-feira à noite, maior que a da abertura das Olimpíadas, que a do Oscar desse ano ou qualquer final do programa American Idol pode ser apenas uma contagem de cavalos. O alcance da campanha online -- contando com espectadores, assim como contribuintes de campanha e organização em rede -- permanece desconhecido.

Nada disso, nem o sucesso do discurso de Obama, garante a vitória democrata. O que é certo é que não há como prever o final dessa corrida. Apesar das nossas tentativas de prever o resultado dessa eleição usando o prisma de eleições recentes e não-recentes, continuamos fracassando. A convenção da semana passada não poderia ser transformada num replay dos anos 60, independentemente do esforço da imprensa em vender os partidários de Hillary como reencarnação de facções rebeldes do passado, dos democratas do Sul até a esquerda anti-guerra. Longe de ser descendente de 1968, a reunião democrata de 2008 foi a primeira que se manteve dentro do previsto e evitou os discursos politicamente corretos para agradar a cada grupo partidário.

Não voltamos a 28 de agosto de 1963. Como um jovem de 14 anos de idade, em Washington, eu estava no parque, levado pela minha mãe, uma professora, com a esperança de aprender alguma coisa [no discurso de Martin Luther King]. Numa época em que a capital, com sua grande população de negros, ainda estava distante um ano de votar para presidente, quem é que poderia imaginar que um dia um negro teria alguma chance de se eleger presidente? Eu, não.

Mas mesmo quando paro para respirar e apreciar esse momento marcante de nossa história, não é possível. Os tempos são outros. Depois da catástrofe dos governos Bush, os problemas graves que nos afligem em quase todas as frentes podem nos deixar com nostalgia de quando nossos problemas mais graves eram entre brancos e negros.

Como disse Obama, essa é uma eleição importante. Só vamos nos dar conta da magnitude de nossa escolha quando e se pararmos de nos distrair com coisas pequenas, quando não pequenas e imaginárias.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Ato pelo impedimento do presidente do STF, Gilmar Mendes



Nos últimos tempos, notórios corruptos e corruptores foram investigados e presos corretamente pela Polícia Federal. Foram presos nos últimos dias o especulador Naji Nahas, o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta e o banqueiro Daniel Dantas. Infelizmente, apesar de farta documentação e provas, inclusive da tentativa de compra (com um milhão de reais) de um delegado da Polícia Federal pelo banqueiro Daniel Dantas para não ser investigado e preso, o presidente do Supremo Tribunal Federal - STF, Gilmar Mendes, deu liberdade para Daniel Dantas, duas vezes, já que este foi preso duas vezes, em tempo curtíssimo, em questão de horas.
Os casos em que estas pessoas e grupos estão envolvidos dizem respeito a bilhões de reais do nosso dinheiro, de dinheiro que nos faz falta na educação, na saúde e em tantas outras áreas que, pela ação de pessoas compromissadas apenas com o ganho individual a qualquer preço, avançam sobre o patrimônio que antes pertencia a todos nós.
Circula em diversos veículos da mídia as afirmações de que Daniel Dantas teria medo apenas da Polícia Federal e da primeira instância do poder Judiciário, uma vez que no Superior Tribunal de Justiça e no STF ele contaria com "facilidades"...
É nosso dever investigar a fundo e descobrir: Com que tipo de "facilidades" uma pessoa com o poder político e econômico como Daniel Dantas pode contar no STJ e STF?
Já circula pela sociedade manifestações de diversos cidadãos e entidades: mais de 130 juízes federais, jornalistas, policiais e advogados, contando também com o repúdio de estudantes e trabalhadores das mais diversas áreas.
Tendo em vista que o Supremo Tribunal Federal é a instância máxima de um dos três poderes da República, e que nenhuma pessoa deve ser inatingível quando tenta corromper as instituições para não ser investigada e presa;
Levando em conta que nenhuma pessoa, mesmo que no mais alto posto de um dos poderes da República deve possuir poderes absolutos e ser irremovível, e que acima de tudo o cargo de ministro do STF é um cargo que também é político, por isso eles são indicados pelo presidente da República, representando toda a população. Não podemos deixar que o presidente do Supremo Tribunal Federal se considere como "Supremo presidente do Brasil".
Lembrando que já realizamos, nas ruas, o impedimento de um presidente da República quando isso se fez necessário;
Nos manifestamos pelo IMPEDIMENTO DO PRESIDENTE DO STF, GILMAR MENDES!
É HORA DE IRMOS ÀS RUAS!
ATO EM FRENTE AO STF NESTA SEXTA 18/07, A PARTIR DAS 10h DA MANHÃ
Assinam esta convocatória:
Cláudia Maya - vice-presidente da União Nacional dos Estudantes no DF
Felipe Lima – vice-presidente da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas no DF
Yuri Soares Franco - Diretor do Centro Acadêmico de História da UnB
Rafael Holanda Barroso – diretor do Centro Acadêmico de Ciência Política da UnB

segunda-feira, 14 de julho de 2008

O impeachment como remédio tem apoio na Constituição


A evocação é inevitável. Quando o nome do advogado-geral da União, Gilmar Mendes, foi encaminhado ao Senado, para ocupar uma das cadeiras do STF, muitos manifestaram estranheza. O libelo mais forte coube ao professor Dalmo Dallari. Em artigo publicado antes da votação, o mestre paulista advertiu que, aprovado o nome do advogado-geral da União, estariam "correndo sério risco a proteção aos direitos no Brasil, o combate à corrupção e a própria normalidade constitucional". Dallari lembrou que Gilmar, derrotado no Judiciário, "recomendou aos órgãos do Poder Executivo que não cumprissem as decisões judiciais". Outro caso, lembrado por Dallari, foi o de que a Advocacia-Geral da União, cujo titular era Gilmar, havia pago R$ 32.400 ao Instituto Brasiliense de Direito Público, do qual o atual presidente do STF era um dos proprietários, a fim de que seus subordinados ali fizessem cursos.

Advogados, como o ex-presidente da OAB Reginaldo de Castro, e alguns jornalistas, entre eles este colunista, consideraram que faltavam ao indicado títulos para a alta posição. O fato de haver freqüentado universidades estrangeiras não era recomendação suficiente. Inúmeros ostentam este mesmo título. Há, mesmo, os que se fizeram professores em renomados centros universitários europeus e americanos, e nem por isso foram convocados à alta magistratura nacional. Sua carreira era relativamente curta. A muitos incomodava o comprometimento com o governo Collor – a quem serviu, na Secretaria da Presidência, até o impeachment – e com o de Fernando Henrique. Com Itamar no Planalto, o senhor Gilmar Mendes se transferiu para o Poder Legislativo.

Cabia ao advogado, no governo de Fernando Henrique, examinar e redigir os projetos de lei e medidas provisórias. Algumas dessas medidas foram consideradas inconstitucionais e, com ligeiras modificações, reeditadas. O mais grave é que ele se encontrava subjudice, processado por improbidade administrativa – conforme a denúncia de Dallari – quando seu nome foi levado à Comissão de Justiça do Senado para ocupar a vaga no Supremo. O fato foi comunicado à Câmara Alta, mas o rolo compressor do governo quebrou a resistência da maioria dos senadores. Ainda assim, seu nome foi recusado por 15 parlamentares. Normalmente não há tão expressiva manifestação contrária às indicações presidenciais para o STF. A Associação dos Magistrados Brasileiros também se opôs à sua nomeação. Mais ainda: o Ministério Público questionara, antes, a presença de Gilmar, que pertencia a seus quadros, na Advocacia-Geral da União.

Permito-me citar trecho de artigo que publiquei no Correio Braziliense, no dia mesmo em que o nome do advogado Gilmar Mendes foi levado à Comissão de Constituição e Justiça do Senado:

"De um juiz se pede juízo. O advogado-geral da União excedeu-se no desempenho de suas funções, e excedeu-se também nas relações necessárias com o Poder Judiciário e com o Ministério Público. A firmeza na defesa dos atos governamentais, e das teses jurídicas em que eles possam sustentar-se, não permite o desrespeito para com os que tenham posição diferente. O senhor Gilmar Mendes poderia criticar, com alguma razão, o desempenho do Poder Judiciário, desde que ele atribuísse a deficiência ao acúmulo de leis confusas e conflitantes, situação constatada por todos os magistrados, e o fizesse em termos serenos. Mas se esqueceu o aclamado jurista de que tais leis, em sua maioria, procedem da incompetência do próprio Poder Executivo, a maior fonte legislativa destes últimos anos, com suas medidas provisórias, portarias, decretos, normas – e memorandos". Até aqui o texto de maio de 2002.

Quando Gilmar, como advogado-geral da União, recomendou aos órgãos públicos que não cumprissem ordens judiciais, excluiu-se eticamente do direito de pertencer ao Poder Judiciário.

Soube-se ontem à noite que um grupo de cidadãos de São Paulo se articula para pedir ao Senado Federal o impeachment do ministro Gilmar Mendes, de acordo com o artigo 39, item V da Constituição Federal, combinados com os artigos 41 e 52, II, da Carta Maior. Conforme dispõe a Constituição, qualquer cidadão, de posse de seus direitos políticos, pode solicitar o impeachment de um membro do Supremo.


Mauro Santayana é jornalista e publicitário.

Texto originalmente publicado no Jornal do Brasil, edição de 14/07/2008.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

O impacto econômico do código aberto



Artigo de Cézar Taurion, Gerente de Novas Tecnologias Aplicadas da IBM Brasil

O modelo Open Source já afetou toda a indústria de software. Ele permite criar novos modelos de negócio e expande o próprio mercado de software, disponibilizando soluções a custos antes inatingíveis por muitas empresas.

Algumas empresas foram pioneiras em entender e adotar este modelo de forma complementar, enquanto outras tentaram, em vão, lutar contra. E o que vemos hoje? Open Source já não está mais confinado ao Linux, mas abrange uma gama imensa de produtos de software. E um dos maiores influenciadores de seu uso tem sido os governos. Um relatório publicado pelo CSIS (Center for Strategic and International Studies) mostra que em agosto de 2007 já existiam 268 iniciativas governamentais de apoio ao uso de Open Source, sejam em discussão ou já aprovadas.

Além disso, um fator de extrema importância e que muitas vezes não aparece com o devido destaque é o seu impacto econômico. O efeito econômico da indústria de software não pode ser medido simplesmente pelos empregos e impostos gerados diretamente. O software provoca um profundo impacto em praticamente todos os segmentos da economia. No nível mais básico, automatiza tarefas repetitivas que antes requeriam grande investimento de tempo e dinheiro.

Com a automatização destas tarefas as empresas conseguem se concentrar no trabalho mais substantivo, em vez do administrativo. A evolução tecnológica permite variar e sofisticar o trabalho, permitindo, por exemplo, que engenheiros utilizem recursos de “realidade virtual” para produzirem visões de automóveis, aeronaves e edifícios.

A tecnologia da informação e o software são ferramentas essenciais para melhorias de eficiência das empresas e economias, aumentando sua produtividade e competitividade. A inovação tecnológica provocada pelo software pode afetar indústrias por inteiro, como o emblemático exemplo da indústria fonográfica que foi totalmente modificada pelo advento do P2P e da Internet.

A indústria de software se encaixa nas classificações pertinentes da economia de serviços. É invisível, embora seus efeitos sejam sentidos – é indivisível, pois não funciona em partes, e é intangível, pois não pode ser tocado ou estocado. O que é estocado são as mídias. Além disso, existe a dificuldade em estabelecer um valor real a ele.

É uma indústria com baixas barreiras de entrada e pouca necessidade de capital, que impulsionam o ritmo de inovação. Produtos inovadores são lançados continuamente, bem como as versões dos produtos existentes são liberadas em curtos intervalos de tempo entre si.

O Open Source potencializa toda esta dinâmica. A esmagadora maioria das start-ups da Web 2.0 são construídas em cima de soluções Open Source. Sem o modelo de código aberto seria impossível conseguir um volume de investimento tal que permitissem a essas empresas se lançar ao mercado.

O impacto econômico do modelo Open Source fica mais gritante quando comparamos o que seria o desenvolvimento de uma distribuição como a Debian (com dados de 2006), com seus mais de 220 milhões de LOC, que se fosse desenvolvido por uma única empresa teria consumido 163.522 homens-ano a um custo estimado de 12 bilhões de euros (em 2005) e chegando, com as previsíveis evoluções e modernizações, a 100 bilhões de euros em 2010.

Alguns estudos mostram que 50% do código Open Source é completamente substituído em um período de cinco anos. Olhando apenas o esforço de codificação (excluindo debug, documentação, testes, etc), estaríamos falando em 43.944 homens-ano correspondentes a 26 mil desenvolvedores FTE (Full-Time Equivalent).

Inimaginável pensar que existiria alguma empresa de software, principalmente uma start-up que se aventuraria no mercado para competir com softwares já dominantes, demandando este imenso volume de investimento. Sem o Open Source o mundo do software seria outro, completamente dominado por monopólios.

Por outro lado, o modelo aberto abre perspectivas inovadoras de desenvolvimento colaborativo. O relatório mostra que a distribuição Debian analisada teve a contribuição de 986 empresas, que entraram com mais de 31 milhões de linhas de código, com esforço de 16.444 homens-ano, a um custo estimado de 1,2 bilhões de euros. Entre as empresas destacam-se a IBM, Sun MicroSystem, RedHat, Novell e outras. Fica claro que Open Source é um movimento que agrega esforços da comunidade e de empresas.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Grave ingerência sobre a liberdade de opinião: Justiça Eleitoral censura Blog


extraído do Blog do Sérgio Amadeu: http://samadeu.blogspot.com

"Não concordo nem um pouco com a candidatura do Gabeira, mas isso não me dá o direito de impedir que as pessoas, que com ela concordam, discutam a necessidade de sua candidatura. O objetivo da esfera pública é o debate entre os cidadãos sobre as escolhas que definem os destinos de sua cidade, estado, nação e planeta. Em vez de incentivar o espítito deliberacionista, a discussão política sobre as melhores alternativas para os governos, a Justiça Eleitoral do Rio de Janeiro age contra o direito de opinião e o uso público da razão. Ela acaba de exigir que Gabeira mande os blogueiros retirarem os banners que declaravam seu apoio. Um ato de confusão e censura. Isto é o que dá, não termos reagido com a força necessária a Resolução do TSE que restringe o uso da Internet nas eleições deste ano. O pior é que fui a um debate na TV Cultura e vários partidos se comprometeram a lutar contra a aburda proibição do uso livre das ferramentas e sites de relacionamento na rede mundial de computadores (que agora envolve celulares). Estão tratando a rede como broadcasting. Temos que protestar. Estão extrapolando as suas funções judiciárias. Estão querendo limitar o uso da esfera pública interconectada.

Veja o que o Pedro Dória escreveu em seu blog:


"Ordem judicial não se discute. Se cumpre.

Este Weblog lançou, há alguns meses, uma campanha pedindo que um deputado federal se lançasse candidato à Prefeitura do Rio de Janeiro. Aconteceu e ele é candidato.

Hoje, o deputado foi intimado por conta do banner que este e outros blogs publicam em apoio a sua candidatura. O TRE-RJ exige que seja retirado do ar. Em caso contrário, corre o risco de ter sua candidatura cassada.

Nenhum político paga por este banner. É uma declaração de voto pessoal de minha parte. O banner leva a um argumento pela sua candidatura. É o meu direito como cidadão de manifestar o que penso, qual o caminho que desejo para minha cidade. Ninguém deve ser punido porque exerci meu direito de cidadão em uma democracia de manifestar minha opinião.

Mas a Justiça considerou que deve impor limites ao meu direito de expressar minha opinião. É um fato grave.

O Weblog é um veículo jornalístico. Eu sou jornalista. O gesto do Tribunal é uma censura à liberdade de imprensa."

quinta-feira, 8 de maio de 2008

PT em São Luís: jogos ocultos e uma atípica opção por ser coadjuvante

Com o intuito de tentar entender o inexplicável um setor da juventude petista de São Luís se reuniu ontem para discutir e avaliar o encontro de tática eleitoral realizado no dia 27 último. Convidamos para tanto o especialista em História do Maranhão e Mestre em Ciências Sociais, Robison Pereira, filiado ao partido desde 1986. Com conhecimento de causa em relação à 'lógica' do modus operandi político das forças que compõe o PT maranhense e, no vazio de argumentos políticos para justificar a tese vencedora do encontro, Robison recorre à lógica das relações pessoais na constituição das relações políticos do partido. Segue um artigo do intelectual que serviu de base às discussõs realizadas com a Juventude petista.

"No dia 10 de outubro de 2006, ao responder à pergunta de uma jornalista sobre o PT na Bahia e no Piauí ter vencido caciques políticos do porte de Antonio Carlos Magalhães e Mão Santa e sobre se haveria alguma indicação de que o Maranhão poderia vislumbrar caminho semelhante nos próximos anos, disse o seguinte: “Nos dois casos, o PT teve capacidade de unificar internamente e, a partir de uma discussão programática, conquistou apoio de outros setores da sociedade, inclusive de outros partidos de oposição. No Maranhão, o PT vem se apequenando nas disputas internas, sem um projeto para o Maranhão e sem unidade interna, preferindo ser a ilha petista no Nordeste. Por conseguinte, deve coadjuvar ainda por um bom tempo”.
Passados 18 meses da referida análise, observa-se o aprofundamento dos conflitos intrapartido, em que cada facção parece ter como objeto-fim, que não a organização e o fortalecimento político do PT, mas a morte dos líderes momentaneamente adversários, numa luta exacerbadamente fratricida. Com efeito, o PT desvela seu caráter ambivalente – na perspectiva de emancipação da participação –, mas também tem um caráter conservador, posto que é dirigido por pequenos grupos oligárquicos.
Como conseqüência, o partido tem dificuldade de ouvir sistematicamente a sua real base de sustentação; dificuldade de conduzir processos políticos complexos que se impõem no jogo político contemporâneo. Ou seja, há um grande problema de direção partidária, de ausência de líder(es) capaz(es) de entender e conduzir o desejo de sua base e das massas em relação a um projeto de fato para a cidade de São Luís.
De ausência em ausência, a tensa disputa congressual, no dia 27 de abril, foi recheada de falta de argumentos políticos, por exemplo, pelo campo majoritário – “São Luís que queremos” e “Esquerda unida muda São Luís” com 108 delegados –, que justificassem a coligação com o PCdoB. Perceberam-se devaneios de futuros programas de governo, em detrimento do debate político; críticas aos governistas estaduais, entre eles os petistas; e a subjacente negação de que o futuro candidato a prefeito do PCdoB não faz parte do governo. Pasmem, mas houve até quem defendesse a coligação com os comunistas, alegando proteger o candidato petista que investia a favor da candidatura própria. Ou seja, um palco onde a simulação e o simulacro foram erigidos como peça fundamental.
Por outro lado, os adeptos da candidatura própria – “ Ousar lutar, ousar vencer Bira Prefeito” e 97 delegados –, após a derrota do primeiro e principal holding, quiseram emplacar uma aliança preferencial com o PDT, o que é normal, posto que a grande maioria de seus dirigentes também compõe o governo estadual capitaneado pelo PDT. Ocorre que a estratégia para atingir tal objetivo também foi eivada de um moralismo que não cabe mais nos discursos das lideranças petistas, ou seja, o de que o candidato a prefeito do PT, leia-se o camarada do PCdoB, teria baixado na arena política maranhense de pára-quedas e sido eleito com apoio financeiro da estrutura do ex-governo estadual. O argumento é inócuo e despropositado – pelo menos naquele momento -, porque o deputado do PCdoB começou a vida política no PT de São Luís e, quando retornou à vida partidária, quis voltar ao PT e não foi aceito. O alvo penso, naquele momento, devia ser porque a outra banda do PT mudou de posição em relação ao PCdoB, de 2002 para 2008. Uma facção petista (“Esquerda unida muda São Luís”) – que hoje fez defesa da coligação PT/PCdoB – pediu, em 2002, sob recurso ao Diretório Nacional do PT, a não-aliança com o PCdoB. Quem mudou o PCdoB Ou PT? Porque mudou? Isto é, sobrou argumento denuncista e faltou argumento político.
Se não há debate político, impõem-nos suposições de ordem sociológica como possíveis argumentos – amizade, emoção, etc. É pensamento de boa parcela dos sociólogos: para se ter uma amizade é preciso existir confiança. Mas, para se estar aberto a partilhar com um amigo e a confiar a ele seus pensamentos ou informações íntimas, é preciso haver reciprocidade. Para tanto, não é preciso ter laço de sangue, porque a relação é opcional, não é fundamentada em nenhum contrato jurídico ou político. Não há reciprocidade entre os líderes e as respectivas facções petistas; portanto, não existe confiança entre eles, o que é bastante grave em uma instituição política, por mais partido que ela seja.
Em um momento histórico em que há em curso um processo de individualização das relações sociais e das formas de agir e pensar individuais, o sentido de muitos é de desconforto e inquietação sobre as conseqüências pessoais e fracionais de tal caminho. Já não se aceita mais as antigas regras relacionais da cultura petista vividas até bem pouco tempo. Elas vêm se tornando incômodas e, para muitos, olhadas até com certo menosprezo, como incultas ou incivilizadas, mas também não há um sentimento de adequação aos rumos individualistas que tendencialmente vêm tomando conta das relações sociais e individuais no partido dos trabalhadores, especialmente no Maranhão, onde a emoção está à flor da pele, e a razão, no bico dos sapatos.
Como resultado, por meio da intolerância e mesmo de ausência de uma cultura de alteridade do PT – o que não é característica do PT em outros Estados –, está a prevalência de uma descaracterização do PT. Apenas isso pode ser considerado para entender como a instituição PT de São Luís abre mão de todo um patrimônio e de um raro capital político para não ser protagonista de um projeto de poder na Ilha e no Estado, pela via centro-esquerda. Ou seja, a amizade e a emoção são importantes em todas as dimensões da vida, mas não podem se sobrepor aos desejos e sonhos de uma coletividade jurídica/política, como é o PT e, sobretudo, à vontade de cerca de 10% dos ludovicenses que vêem em Bira e no PT uma nova e real opção de poder. A irracionalidade individual e de facções é uma característica típica do primitivismo de natureza política, cuja conseqüência é ceder à influência de impulsos obscuros, como parece indicar o tabuleiro político do PT em São Luís, com sua sucessão de jogos ocultos e uma atípica opção por ser coadjuvante."

Esse artigo é base de uma conversa com setor da juventude petista.
Robison Pereira é filiado ao PT desde 1986, sociólogo, especialista em história do Maranhão e mestre em ciências sociais.