Nosso blog tem o prazer de publicar uma entrevista com Keysse Dayane, militante do movimento negro no Maranhão, do coletivo Juntos, Juntas e do MES/PSOL, indicada para disputar a vaga de vice-prefeita na chapa encabeçada por Bira do Pindaré do PSB na corrida pela Prefeitura de São Luís.
Keysse, em primeiro lugar você poderia se apresentar? Seu nome, idade, profissão, trajetória…
Meu
nome é Keysse Dayane de Sousa, sou quilombola, candomblecista,
bacharela em Direito. Tenho 28 anos. Meu
pai é subtenente da Polícia
Militar do Maranhão e
durante minha infância e pré-adolescência foi fotógrafo do Bloco
Afro-Akomabu. Minha
mãe é pedagoga, coordenadora de escola, tenho 4 irmãs, 3 pequenas
e uma
um ano mais nova que eu, que
é
advogada. minha família paterna é do Quilombo de São Cristóvão,
Viana. Sou
cria do Centro
de Cultura Negra do Maranhão - CCN, e apesar
de ter crescido dentro do movimento
negro
do Maranhão, só conhecia a parte cultural, não detinha
conhecimento o suficiente sobre minha identidade e ancestralidade até
passar por uma situação de racismo na faculdade onde comecei a
graduação.
Ter
passado por um situação de racismo “disfarçado” fez com que eu
tivesse de fazer transferência externa
do meu curso para outra instituição, perdendo boa parte do que eu
já havia cursado. Ter seu sonho quase ceifado e atrasado é um
pesadelo que não desejo a ninguém, mas isso fez com que eu
percebesse que a academia não era um local de acolhimento, mas de
permanente opressões, por manutenção do status quo de uma
sociedade racista.
Antes
mesmo de entender o que era racismo, ainda no início do curso
superior pude passar por uma experiência que aos poucos fora
desvendando a verdade em minhas retinas. Em meu primeiro estágio na
área jurídica, o meu convívio com o sistema prisional fora de
forma direta, em um núcleo de advocacia voluntária dentro do
presídio de Pedrinhas. Naquele primeiro momento, ainda sem uma base
teórica das nuances que o racismo atingia, me inquietou o fato da
grande maioria dos apenados serem negros, periféricos, assim como
eu. Intrigava-me a circunstância dos mesmos serem tratados como
invisíveis para o sistema, não possuindo documentação dentro dos
presídios e de não haver uma preocupação com a contagem da pena,
consequentemente, da progressão de regime e outros benefícios pelos
quais teriam direito.
Com
minha transferência externa me vi obrigada a buscar conhecimento a
respeito das questões raciais. Então um amigo me convidou para
participar de uma reunião do FONAJUNE (Fórum Nacional da Juventude
Negra) que me deu o embasamento que eu precisava, nossos estudos
semanais aos poucos destrinchava e explicava o mundo a minha volta.
Realizávamos
ações sociais no
ano de
2015 e com a eminência do Projeto de Lei que visava reduzir a
maioridade penal, organizávamos o Cine Quebrada com
o intuito de levar uma dimensão lúdica do
cinema e algumas oficinas, juntamente com a discussão social sobre o
projeto de lei e quem seria o alvo dele. Até porque a maior arma que
temos contra medidas como essa que ferem não só o Direito das
Crianças e dos Adolescentes, assim como, Direitos Humanos, ainda é
o conhecimento.
Naquele
ano tive oportunidade de representar o FONAJUNE na Frente Contra
Redução da Maioridade Penal, realizada e
organizada no
Sindicato dos Bancários, pelos movimentos sociais
em São Luís, no Maranhão. No mesmo ano, estive presente na CPI do
Sistema Carcerário do Maranhão, no dia 23 de junho. Percebi de
forma mais nítida, que o mito da democracia racial mascara o
genocídio da juventude negra, boicotando a possibilidade de
crescimento social, externalizado naquele momento através da busca
desenfreada de por crianças no cárcere, bem como a irrelevância
dada ao número de casos de morte e desaparecimento dentro dos
presídios. Ficando evidente a dimensão colossal deste problema
social.

O
que seria o encarceramento em massa, senão o aglutinamento de corpos
negros, animalizados, despersonificados juridicamente e levados a
concessão mínima de direitos fundamentais, objetificados até a
última instância? Tudo isso me levou a produzir a monografia com o
tema “Criminologia e Racismo: o cárcere como instrumento de
segregação racial no séc. XXI” para conclusão do curso de
Direito na Universidade Dom Bosco, em 2019. Tema este que tenho
palestrado em escolas públicas, órgãos estatais, não
governamentais, como também em universidades públicas e
particulares do meu estado desde 2017.
No
dia seguinte a minha defesa, fui convidada para representar o CONEGRU
(Coletivo Negro da UFMA) na mesa de lançamento da Frente Estadual do
Desencarceramento, em evento organizado pela Sociedade Maranhense de
Direitos Humanos. Não há como se falar de Direitos Humanos no
Brasil, sem pautar questões raciais, visto que a população mais
marginalizada nesse país é a negra, vivendo até hoje as piores
estatísticas sociais, fruto de uma desigualdade social cujo berço
foi o primeiro sistema econômico aqui vigente, a escravidão. Por
conta dela houve uma redução dos africanos a objetos, de valor,
troca e venda. São apenas três gerações de descendentes de
africanos, africanos em diáspora, livres. Vivendo a mercê de um
sistema que tenta nos matar todos os dias das mais diferentes formas,
não só a violência física, como psicológica, a desumanização
dos corpos negros continua.
Diante
disso, ser uma mulher negra, dentro de uma área tão machista e
racista como o direito, me fez ver que representatividade não é
apenas ocupar esse espaço, mais também fazer a diferença, lutando
em prol da mudança da realidade social da população negra e
pretendo fazer isso em qualquer espaço que eu venha a ocupar.
Em
relação à cidade de São Luís, quais os
principais desafios que precisam ser enfrentados
pelo poder público?
As
últimas gestões deixaram a cidade em completo abandono, desde
infra-estrutura, saúde, educação, transporte, cultura, lazer. O
que vemos atualmente é a população descontente. Quebrar essa ideia negativa, mostrando que política ainda é um instrumento
forte de transformação e que o executivo tem por objetivo buscar a
melhoria da qualidade de vida dos ludovicenses, seria para mim o
primeiro desafio. E para isso, faz-se necessário que cidadãos
entendam que permanecer votando nas mesmas conjunturas políticas
passadas hereditariamente dentro das famílias abastadas do estado,
não poderá gerar mudanças reais na realidade social que vivemos.
Em
relação ao PSOL na sua opinião qual é a
papel do partido no enfrentamento dessas
dificuldades na cidade?
Estamos
num momento político bem favorável ao partido. A ascensão do
fascismo no contexto federal, tem gerado uma constante redução de
direitos e políticas públicas de inclusão, fazendo com que os
brasileiros abrissem os olhos e pudessem ver que esse não é o
caminho. Infelizmente, a pandemia do Covid-19 agravou as
desigualdades sociais, mostrou como o governo federal não tem
interesse em trabalhar na manutenção das nossas vidas e como lutar
por ampliação de políticas públicas, bem como melhoria da
qualidade e acesso a saúde é essencial e urgente.
Na
contramão do fascismo, o PSOL tem como estandarte a inclusão e
respeito a diversidade, buscando amparar as minorias que são
constantemente desrespeitadas pelo sistema. Vivemos num estado cuja
80% dos habitantes são negros, tal estimativa reflete diretamente em
nossa cidade. A maior parte da população vive em condições
precárias, tendo desrespeitados diversos direitos fundamentais. A
realidade nos grandes quilombos urbanos, também chamados de
periferias, nos mostram isso; falta o mínimo: água encanada,
sistema de esgoto e escoamento, pavimentação, se locomover pela
cidade usando o transporte público é um desafio diário, diante da
falta de qualidade e manutenção do serviço.
Nesse
sentido o PSOL não só em nossa cidade, como no Maranhão, tem uma
responsabilidade muito grande para cumprir e para isso, precisamos
ocupar espaços decisórios no sentido de enfrentar as estruturas de
manutenção do status quo e por meio disso, auferir uma mudança na
realidade social vigente.
Na
sua opinião por que o PSOL de São Luís ainda
não se apresenta como alternativa real para o
campo de esquerda e para os militantes e
ativistas da cidade?
O
PSOL tem avançado em nosso estado, buscando filiar lideranças
comunitárias, quilombolas e indígenas, bem como militantes dos
movimentos sociais, nesse sentido me sinto muito bem representada.
Entretanto, se tratando da nossa cidade, ainda existem figuras
antigas no partido que não conseguiram acompanhar as renovações e
força que diversos movimentos sociais ganharam nos últimos anos,
desencadeando um atraso, tendo em vista que a maior parte da nossa
população é jovem, aberto a essas mudanças e quer se sentir
representado.
Como
foi a sua aproximação com o PSOL e com o
MES?
Eu
não consigo me recordar como conheci Nonnato Masson e por meio de
quem. Só sei que ele está presente na minha vida desde 2015, meu
querido e eterno orientador, pessoa pela qual tenho muito carinho e
admiração, advogado, quilombola, militante. Ele sem dúvidas é o
maior responsável pela minha filiação. Masson sempre me incentivou
a buscar conhecimento dentro dos movimentos sociais e a refletir de
maneira mais crítica dentro do curso de Direito.
Ele
vem plantando a semente para minha filiação há anos, creio que
desde 2016. Em 2017 quando conversávamos sobre a minha monografia
ele me mostrou figuras importantes dentro do partido, mulheres recém
eleitas e entre elas estava Marielle Franco, Sâmia Bonfim. Foi então
que resolvi fazer uma pesquisa aprofundada sobre o partido e me senti
ideologicamente representada pelo mesmo, me filiando ao PSOL no dia
08 de setembro de 2019,
sendo o MES
a tendência que mais me identifico.
Em
relação à postulação à candidatura de Vice-
Prefeita na chapa junto com Bira do Pindaré
como você entende a importância da unidade da
esquerda democrática no enfrentamento do
bolsonarismo e
do neofascismo no Brasil?
Mais
do que nunca a esquerda precisa se fortalecer, buscando alianças
sólidas para retardar o avanço do neofascismo, desse modo a
coligação numa chapa com o deputado Bira do Pindaré só mostra o
quanto estamos no caminho certo. O deputado é o pré-candidato a
prefeito que mais representa a mim e aos cidadãos ludovicenses. Tem
origem simples, veio dos movimentos estudantis e atualmente luta
pelas questões quilombolas, sendo presidente da Frente Parlamentar
Mista em Defesa das Comunidades Quilombolas, ajudando na suspensão
da remoção das comunidades tradicionais que vivem na área da Base
Espacial de Alcântara, que ocorreria mesmo durante uma pandemia. O
seu olhar humano pelas causas sociais só mostra como a cidade tem
opção viável no enfrentamento ao bolsonarismo.
Na
sua opinião qual a importância da
participação de mulheres, negros e negras e da
juventude no enfrentamento
aos problemas
estruturais que a cidade de São Luís possui?
Marielle
Franco sem dúvidas é uma grande inspiração para mulheres negras e
jovens que vislumbram uma carreira política. Apesar do sentimento de
injustiça pela sua perda, várias Marielles estão surgindo para
romper a estrutura política atual, onde a participação de negros é
irrisória. Se tratando de um estado de maioria negra como nosso,
fomentar a ocupação desses espaços de poder é mais que necessário
para que nossas demandas sejam ouvidas e amparadas. E parafraseando
Carolina de Jesus, “o Brasil precisa ser dirigido por alguém que
já passou fome”, nossa cidade precisa ser dirigida por quem viveu
as piores condições sociais dadas pelo Estado. Hoje não temos ao
menos uma vereadora negra. Ainda há um caminho longo para percorrer
e como mulher, preta e quilombola, espero fazer a diferença nesse
sentido.