segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

FREIXO OUTRA VEZ Por Caetano Veloso


Gosto de Freixo não porque ele é do PSOL. Acho que gosto um tanto do PSOL por ele abrigar Freixo. Sou independente, conforme se vê. Ser estrela é bem fácil. Nada importam as piadas dos articulistas reacionários que classificam minhas posições como Radical Chic. Desprezo a tirada de Tom Wolfe desde o nascedouro. Antigamente tentavam me incluir na chamada esquerda festiva. Isso sim, embora incorreto, me agradava: a expressão brasileira é muito mais alegre, aberta e democrática do que a de Wolfe. Mas tenho vivido para desmontar o esquema que exige adesão automática às ideologias da moda. Deploro o resultado das revoluções comunistas. Todas. E, considerando o Terror que se seguiu a 1789, sou cético quanto a revoluções em geral. Na maioria das vezes, a violência se dá, não para fazer a história humana caminhar, mas para estancar seu fluxo. Olho com desconfiança os moços que entram em transe narcisista ao quebrar vidros crendo que desfazem a trama dos poderes. Ainda hoje não consigo adotar a posição que considera Eduardo Gianetti, um liberal crítico, ou André Lara Rezende, o homem que põe em discussão o crescimento permanente, conservadores. Nem acho que o conservadorismo seja necessariamente um mal. A adesão de alguns colegas meus à nova direita me deixa nauseado, não por ser à direita, mas por ser automática.

Simplesmente me pergunto qual exatamente será a intenção do GLOBO ao estampar manchetes e editoriais induzindo seus leitores a ligarem Marcelo Freixo aos rapazes que lançaram o rojão que matou Santiago Andrade. A matéria publicada no dia em que saiu a chamada de capa com o nome do deputado era uma não notícia. Nela, a mãe de Fábio Raposo, o rapaz que entregou o foguete a Caio Souza, é citada dizendo acreditar que o filho “tem algum tipo de ligação com Freixo”. Isso em resposta a uma possível declaração do advogado Jonas Tadeu Nunes, que, por sua vez, partiu de uma suposta fala da ativista apelidada Sininho. O GLOBO diz que esta nega. Como então virou manchete a revelação da possível ligação entre o deputado e os rapazes envolvidos no trágico episódio? Eu esperaria mais seriedade no trato de assunto tão grave.

Li o artigo do grande Jânio de Freitas em que ele defende a tese de intenção deliberada de assassinar um jornalista, o que está em desacordo com as imagens exibidas na GloboNews. Sem falar na entrevista do fotógrafo, que afirma que o detonador do artefato tinha mirado os policiais. Claro que me lembrei, ao ver a primeira reportagem na GloboNews, dos carros de emissoras de TV incendiados durante as manifestações, o que me levou a participar da indignação dos âncoras do noticioso. Um vínculo simbólico entre aquelas demonstrações de antipatia e o ocorrido em frente à Central é óbvio: um rojão sai das mãos de um manifestante e atinge a cabeça de um jornalista. Mas parece-me abusivo ver nisso o propósito de matar o repórter. Nas matérias que se seguiram, O GLOBO, ecoando falas do advogado Jonas Tadeu, que diz não ser pago por ninguém para defender os dois réus mas conta que um deles diz receber dinheiro para ir às manifestações, insiste em lançar suspeita sobre Freixo, por ser o PSOL, seu partido, um possível doador do alegado dinheiro. Na verdade, as declarações do advogado, mesmo nas páginas do GLOBO, soam inconvincentes. O mesmo Jânio de Freitas, em artigo posterior àquele em que defende a tese de assassinato deliberado, se mostra desconfortável com o comportamento de Jonas Tadeu. Já O GLOBO, no qual detecto uma sinistra euforia por poder atacar um político que aparentemente ameaça interesses não explicitados, trata as falas de Tadeu sem crítica. Uma das manchetes se refere a vereadores do PSOL que teriam contribuído para uma ação na Cinelândia, na véspera de Natal, sugerindo ligação do partido com vândalos, quando se tratava de caridade com moradores de rua. O tom usado no GLOBO é, para mim, de profundo desrespeito pela morte de Santiago.

Freixo, em fala firme ao jornal, desmente qualquer ligação com os dois rapazes. Ele também lembra (assim como faz Jânio) que Jonas Tadeu representou o miliciano Natalino.

Quando Freixo era candidato a prefeito, escrevi artigo elogioso sobre ele. O jornal fez uma chamada de capa que, a meu ver, desqualificava meu texto. Manifestei minha indignação. A pessoa do jornal que dialogava comigo me assegurou não ter havido pressão dos chefes. Acreditei. Agora não posso deixar de me sentir mal ao ver a agressividade do jornal contra o deputado. Tudo — incluindo os artigos de autores por quem tenho respeito e carinho — me é grandemente estranho e faço absoluta questão de dividir essa estranheza com quem me lê.



 Publicado em http://oglobo.globo.com/cultura/freixo-outra-vez-11616610#ixzz2tUdXxxdf


quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Execelente resumo dos acontecimentos envolvendo a greve de fome dos estudantes na Ufma. Artigo de Flávio Reis


O DILEMA DA UFMA

Flávio Reis
Departamento de Sociologia e Antropologia


Próxima de completar 50 anos de sua fundação, a Universidade Federal do Maranhão vive um momento emblemático. A greve de fome desencadeada há mais de uma semana pelos residentes das Casas de Estudantes traz em seu desenrolar toda a radiografia de um dilema antigo. Com uma estrutura administrativa arcaica, a universidade é dirigida de forma extremamente concentradora e, dependendo do ocupante do cargo de reitor, esta característica pode ser drasticamente intensificada.
Depois de uma década sem investimentos por parte do governo federal, os reitores de IFES da era REUNI, viram-se na situação de existência de recursos aliado a estruturas administrativas arcaicas que possibilitavam extrema liberdade pessoal na definição de prioridades. No Maranhão, estado ainda com marcas oligárquicas muitos fortes, o peso dessa cultura política concentradora de decisões encontrou sua tradução histórica no medo da dissenção, no elogio subserviente dos poderosos, na bajulação das chefias. A cultura oligárquica não suporta debates, pois se reproduz em circuito quase fechado, entre atores escolhidos a dedo, com roteiro devidamente marcado. Numa palavra, encontra-se em relação inversa ao ideal democrático e republicano de publicização ampla dos atos e dos processos decisórios. Na era do espetáculo, no entanto, preocupa-se enormemente com a encenação.
A gestão do reitor Natalino Salgado se desenvolveu exatamente apoiada no festival de recursos e na exacerbação da concentração de poderes. Sem uma discussão com a comunidade universitária, pondo e dispondo a bel prazer, com a anuência tácita dos conselhos da administração superior ou mesmo simplesmente desconhecendo-os, o reitor Natalino Salgado executou com maestria todos os traços do nosso velho oligarquismo. Movido pela política de expansão promovida pelo governo federal, ele criou o mito do grande administrador, através de uma construção obsessiva em torno do autoelogio.
No fundo, apenas seguia a cartilha do MEC, acatando tudo. Os planos de expansão foram tocados como diretrizes e obras da administração superior e nunca foram alvo de discussão democrática. O campus universitário foi remodelado e a UFMA inchando, talvez seja a palavra certa, sem que a comunidade fosse ouvida. Tudo se resumiu à vontade do reitor, que passou a viver numa verdadeira ilha da fantasia, cheia de números, percentuais e muita propaganda. Acompanhado sempre de um séquito, encarnou a figura do chefe, aquele que encena uma proximidade com a comunidade que dirige, mas na verdade mantém o controle das decisões com mão de ferro.
Como os estudantes já demonstraram largamente, a luta pela moradia no campus é antiga. A decisão do reitor de dar outra destinação ao prédio que em sua concepção original estava voltada para a moradia estudantil, depois de anos de protelações, ensejou a tomada de posição drástica dos estudantes, iniciada na terça-feira, 26 de novembro, quando o aluno Josemiro Oliveira se acorrentou ao portão de entrada e declarou-se em greve de fome. Em sua posição olímpica, o reitor de início pouco se importou e, em viagem, silenciou, enquanto a assessoria de comunicação limitava-se a registrar que a universidade se pronunciaria apenas após seu retorno, no melhor estilo “volte depois, o dono da casa não se encontra”. Tivemos a partir daí uma nota postada no site da UFMA que apenas reafirmava investimentos feitos na assistência estudantil; o não comparecimento do reitor para presidir a reunião do CONSEPE, na sexta-feira, onde o assunto foi debatido, apesar do espantoso voto contrário de alguns conselheiros; uma curta entrevista do próprio reitor, onde repetia a mesma lenga-lenga da nota.
No sábado, diante da falta de resposta da reitoria (a não ser a instalação de câmeras no local do protesto, no pátio em frente ao prédio), que simplesmente afirmava não ter sido solicitado nenhum “agendamento”, numa reunião do movimento pela moradia no campus, com a presença também de estudantes não residentes e alguns professores, além de deputados da comissão de direitos humanos da assembleia legislativa e um membro da OAB, que foram convidados a tomarem conhecimento do problema, ficou claro a necessidade de colocar o protesto na rua, pois a situação se agravava a cada momento.
Foi neste contexto, inconformados diante do silêncio irresponsável por parte da administração superior, que os estudantes e professores ali presentes resolveram levar seus gritos e cartazes à porta da casa do reitor. Sob os olhares da vigilância patrimonial da universidade, que monitorava de perto o que estava sendo discutido e saiu para fazer as vezes de segurança privada, todo o protesto foi pacífico e o objetivo foi alcançado. A situação extrapolava os muros da universidade e chegava às ruas. Poucas horas depois, Josemiro passou mal e precisou ser levado para o Hospital Universitário, assumindo seu lugar, igualmente acorrentado e em greve de fome, o estudante Daniel Fernandes.
Na segunda-feira, dia 2 de dezembro, após uma manifestação feita na Avenida dos Portugueses no início da manhã, com o bloqueio da passagem dos carros e o grande engarrafamento ocasionado, o reitor finalmente decidiu entrar em cena, mas não ainda para dialogar com os manifestantes e discutir sua reivindicação, e sim, para falar à imprensa. Na coletiva convocada ainda pela manhã, reafirmou ter feito os maiores investimentos da história da UFMA; disse que não havia desvio de função na aplicação da verba, pois o prédio não teria sido construído com esta finalidade e que a nova destinação (então existia outra, não?), voltada para assistência estudantil, serviria a um número muito maior de pessoas, portanto sua opção se enquadrava no projeto de inclusão social. Por fim, afirmou ter sido o “mais democrata” de todos os reitores, apto a ouvir todos os segmentos da universidade, apesar de dizer, de maneira totalmente extemporânea, que o protesto era fruto de uma radicalidade pela proximidade de eleições sindicais e estudantis, sem nenhuma explicação. Nas respostas foi taxativo ao dizer que não aceitava abrir mão do prédio. Antes de sentar com os estudantes tratou, portanto, de afirmar logo que não acataria a única pauta do movimento: a entrega da casa para a residência estudantil.
Apenas na terça-feira, uma semana depois do início do protesto, o Magnífico se encontrou com representantes das residências estudantis, com a presença de representantes da OAB e da Defensoria Pública da União. Isto após ter realizado, ainda no dia anterior, uma esdrúxula reunião com diretores de alguns centros acadêmicos (?!), escolhidos entre os que lhe são próximos, pois a entrada de vários outros foi mesmo barrada no clima de fechamento e truculência que tomou conta do Palácio Cristo Rei; ter ido ao bispo em comitiva, incomodado com a nota expedida pela Comissão Arquidiocesana Justiça e Paz, ressaltando que os direitos são geralmente fruto de lutas; e de ter insistido na realização de uma reunião prévia com a defensoria pública. Enquanto buscava apoio sem sucesso, dezenas de declarações favoráveis à luta dos estudantes começaram a circular, vindas não só de diretórios acadêmicos, mas de núcleos de estudos, pesquisadores, professores, departamentos e outros, na esfera acadêmica, além de várias manifestações de solidariedade por entidades da sociedade civil.
O resultado da reunião com os estudantes das casas de moradia foi um fracasso, pois a decisão de não entregar o prédio já estava anunciada, uma posição típica de quem não sabe dialogar. Em troca do fim da mobilização, o reitor propôs, então, que outro prédio fosse construído no campus, com a promessa de apresentar um projeto em 60 dias e a partir daí buscar os recursos necessários. Ora, para quem vem sendo levado na conversa há tanto tempo e depois de ocupações de reitoria, termos de compromisso etc. viu tudo virar nada por determinação pura e simples do reitor, como aceitar tal proposta? Como trocar o sacrifício brutal a que vem sendo expostos seus colegas em greve de fome e todos eles numa mobilização difícil e cansativa, por uma nova promessa de quem teve anos para efetivar uma decisão herdada da administração anterior e do conhecimento de todos, mas sempre criou desculpas e empecilhos para concretizá-la, simplesmente porque tem uma avaliação, exposta sem maiores considerações na coletiva, de que “não é conveniente” a presença permanente de alunos no campus?
O próximo passo do reitor, após o fracasso da reunião, foi convocar uma nova entrevista coletiva para anunciar a sua decisão de baixar uma resolução determinando que a casa para a moradia estudantil seja construída no campus. Ou seja, ele toma mais uma de suas decisões solitárias, impondo o que foi recusado na reunião como forma de “solução” do conflito e vai para a mídia apontar os estudantes como intransigentes. Tal decisão não soluciona nada, apenas agrava e acirra o impasse.
A intolerância às posições divergentes, tão arraigada nesta administração, teve um ponto alto de demonstração num manifesto assinado pela Pró-Reitora de Gestão e Finanças, onde o protesto dos estudantes é desqualificado como fruto de manipulações por entidades de classe e partidos políticos. O texto, postado no facebook no dia 3, pode ser classificado, sem nenhum exagero, de Manifesto da Truculência. Não demonstra nenhuma preocupação com a situação dos manifestantes, inclusive reclamando que um leito do Hospital Universitário estaria sendo ocupado para atender a um “capricho” (pasmem!) de um estudante. Fora isto, e em caixa alta, frisa que a folha de pagamentos pode ter problemas se continuarem os protestos na entrada do campus. A que se deve uma observação tão fora do objeto em discussão? Criar alguma antipatia dos professores, sempre apertados em seus rendimentos, ao movimento? E esta coleção de despautérios termina ainda falando em democracia e diálogo...
A questão que se coloca de forma cada vez mais urgente é se a comunidade universitária ficará refém da intransigência de um reitor acostumado a dar a palavra final sobre tudo ou se colocará firmemente ao lado dos estudantes, levando a administração a tratar o caso com mais realismo, reconhecendo as necessidades urgentes denunciadas e ampliando o acesso à moradia estudantil. É até ridículo afirmar que a UFMA possui mais de vinte mil alunos com matrícula presencial e apenas três casas velhas no centro da cidade como moradia estudantil, atendendo a menos de cem pessoas. Nos campi do interior do estado, os relatos indicam que a situação também é crítica.
Na ação desesperada de alguns estudantes, com todas as dificuldades que enfrentam para se manter na universidade, está a possibilidade de resgatar um mínimo da autonomia tão violentada nos últimos anos. Para isto, é preciso insistir que esta não é uma questão isolada, mas o fruto recorrente de uma maneira de administrar totalmente anacrônica. O impasse em torno da moradia estudantil diz respeito a todos, principalmente pela forma como foi gerado e tem sido encaminhado. Não é possível manter o cotidiano como se não estivesse acontecendo nada, enquanto alunos se acham acorrentados em greve de fome. Lavar as mãos diante disto é sancionar não só o autoritarismo sem freios da administração do reitor Natalino Salgado, mas aceitar passivamente a barbárie que se desenrola hoje dentro do campus da UFMA.
Enquanto a comunidade universitária ainda vacila, Daniel Fernandes foi recolhido ao ambulatório na entrada do campus e um terceiro aluno, Rômulo Santos, iniciou também a greve de fome. Será que vamos esperar o drama se transformar em tragédia?


sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Artigo do professor Flávio Reis sobre os demandos autoritários do reitor da UFMA e sobre a greve de fome de Josemiro Oliveira


O DESVARIO AUTORITÁRIO DE NATALINO SALGADO

Estamos assistindo, e o termo infelizmente é este, a mais um episódio de extrema irresponsabilidade e insensibilidade protagonizado pela administração superior da UFMA, sintetizado na posição imperial e intransigente do reitor Natalino Salgado em torno da questão da moradia estudantil, que se arrasta desde o início de sua gestão. Para ser mais preciso, a comunidade de estudantes acertou com a administração que findava, após uma pressão com a ocupação da reitoria por oito dias, o término das obras do prédio próximo ao bairro do Sá Viana. Recursos previstos para 2007 por emenda parlamentar na ordem de 5 milhões e liberados somente em dezembro, quando já havia tomado posse a nova administração, contemplavam com sobras a obra, cuja finalização estava orçada em cerca de 170 mil reais. Desde então, por mais incrível ou bizarro que pareça, a obra nunca foi concluída, a reitoria sempre enrolando os estudantes com evasivas, apesar das ações de pressão que envolveram novamente a ocupação da reitoria.
Nascido do descumprimento de um acordo herdado da administração anterior, o dilema da moradia estudantil, apesar de todo o dinheiro recebido pela universidade nestes últimos anos por conta do REUNI, espelha rigorosamente um modo de pensar a administração da universidade como resultante da concentração de decisões. É uma forma avessa não só à participação, mas, sobretudo, voltada ao esvaziamento dos colegiados superiores, estabelecendo um padrão de gestão, para usar uma palavra cara à atual reitoria, muitas vezes alheio à observância mínima das regras, das normas básicas de funcionamento da própria instituição, mesmo da maneira conservadora e concentradora de poderes como foram desenhados há décadas.
Em resumo, mesmo no modelo herdado, bastante afeito à concentração de poderes na reitoria, Natalino Salgado sempre extrapolou qualquer limite, o que tem ficado cada vez mais evidente nos últimos acontecimentos envolvendo perseguição a professores, a intervenção no COLUN, o total descaso em convocar o CONSUN, chegando mesmo a ter de fazê-lo apenas após intervenções da APRUMA junto ao Ministério Público, o encaminhamento do caso da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares e outros. Os registros em vídeo das poucas reuniões dos conselhos superiores atestam um comportamento despótico totalmente desconectado do ideal de participação necessário a uma instituição universitária. É a própria figura anacrônica de um coronel decidindo tudo para o puro assentimento de um colegiado dócil até as raias da incompreensão.
Estes são os ingredientes que de novo reaparecem, desta vez de uma forma mais crítica, brutal, no episódio em curso. Inconformados com a destinação do prédio da Moradia Estudantil para outros fins, abrigar mais um órgão da administração, a Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis, os estudantes prejudicados reagiram. Sem nenhuma resposta clara por parte da reitoria sobre um problema grave que se arrasta há tanto tempo, e efetivado o descumprimento da destinação que sempre foi sua, diante da inauguração para outros fins, o estudante do curso de Ciências Sociais, Josemiro Oliveira, tomou uma atitude de risco, acorrentando-se às grades da entrada do prédio e decretando uma greve de fome que já dura três penosos dias. Jogado no tempo, com a ajuda apenas de colegas de moradia, membros da aguerrida direção da APRUMA e do DCE, alguns poucos professores e estudantes.
Isso mesmo! Greve de fome para conseguir uma audiência com o Magnífico Reitor para tratar de um assunto essencial a uma parcela de nossos estudantes, que deveriam estar vivendo em condições dignas e não passando as dificuldades terríveis que vez ou outra são denunciadas ou vêm à tona apenas por força de atitudes quase desesperadas como esta, mas compreensíveis diante da intransigência irresponsável da atual reitoria. Numa manifestação desastrada, como é de praxe, a direção da universidade já chegou a minimizar o número de estudantes atendidos pelo programa de moradia, quando a verdade é que o prédio seria até acanhado frente às necessidades atuais, com a expansão a toque de caixa que estamos vivenciando.
Tivesse a menor sensibilidade e disposição ao diálogo, o reitor deveria, ao tomar conhecimento de tal fato, de onde estivesse, garantir a audiência com os estudantes e evitar a continuidade de um espetáculo terrível, como é ver um estudante se acorrentar em greve de fome dentro da universidade pública para garantir a observância de um direito à moradia estudantil.
Numa circunstância destas é de se perguntar, para que serve um vice-reitor, por exemplo? Para figurar ao lado do reitor e simplesmente assistir a todo festival de desvarios autoritários que temos visto nas gravações estarrecedoras das poucas reuniões dos colegiados superiores, sem dizer uma palavra, esboçar um gesto? Para que servimos nós, professores, chefes de departamento, coordenadores, diretores de centro, se assistimos passivamente à transformação da universidade num território de desatinos administrativos e podemos conviver tranquilamente em nossos afazeres cotidianos com uma situação insana se desenrolando às nossas vistas, à espera de um simples gesto do homem que se considera o “dono da UFMA”.
Esta não é uma questão circunscrita, é a reafirmação continuada e sem freios de uma posição administrativa que está levando o personalismo mais danoso a ditar os rumos da universidade e protagonizando cenas lamentáveis, como foi a expulsão do professor Ayala Gurgel, movida por mero capricho, revertida depois pela justiça em caráter liminar e, agora, esta decisão abrupta, uma rasteira nos estudantes, culminando numa situação que pode ter desdobramentos sérios se ficarmos apenas observando como um espetáculo desagradável.
Diante deste quadro, a administração superior da universidade limitou-se até agora a postar uma nota cínica no site da instituição, onde afirma com todas as letras que “o Reitor tem se reunido sistematicamente com os representantes estudantis e grupos de alunos para ouvir demandas e reivindicações dos estudantes e atendê-los na medida do possível”. Não responde a uma única questão, limitando-se a dizer que a instituição não foi procurada pelos estudantes para agendar nenhuma audiência com a reitoria para tratar do problema e arrolando números da gestão atual, bem ao estilo da eterna propaganda que tanto lhes agrada e engana a sociedade sobre a real situação de desmandos administrativos que é a realidade hoje da UFMA.
Quanto tempo o corajoso Josemiro ficará ainda lá, acorrentado, para que o Magnífico se digne a conceder aos estudantes uma audiência, explicar as suas decisões e discutir uma resolução rápida? Sim, porque o reitor deve explicações, não só aos estudantes, mas a toda a comunidade acadêmica.
Flávio Reis
Departamento de Sociologia e Antropologia

terça-feira, 26 de novembro de 2013

NARCISO EM ESTADO TERMINAL: Flávio Reis comenta Celso Borges



Por Flávio Reis
Um trabalho de Celso Borges é sempre promessa de surpresas. Poeta visceral, afeito a experimentações e radicalismos, há muito deixou de fazer propriamente livros, no sentido mais comum do termo. Apresenta, antes, objetos de arte. Foi o que vimos no esmerado design dos livros-cds que compõem a trilogia A Posição da Poesia é Oposição – XXI, Música e Belle Epoque. O livro se completa noutra coisa, a poesia é lançada furiosamente ao encontro de sons, vozes, colagens, em meio a um grafismo elaborado, num jogo de cores, desenhos, fotografias, apropriações, citações, que são o invólucro para os petardos que estouram em nossas lentes, ouvidos e mentes.
O Futuro tem o Coração Antigo, lançado recentemente no Cine Roxy, é a nova e desconcertante iguaria desse alquimista da palavra, que vem misturando poesia com música, artes plásticas, cinema, fotografia, num esforço sempre múltiplo, coletivo. O jogo de Celso no entrelaçamento das palavras com as imagens e os sons ganha mais um capítulo, com duas faces.
De um lado, poemas curtos, como um click, chamados por ele mesmo de fotográficos, tendo ao fundo fotografias tiradas por alunos de um curso técnico do IFMA, coordenado pelo prof. Cordeiro. As fotos utilizam uma técnica antiga, criando imagens meio embaçadas, disformes, distantes, em uma palavra, fantasmagóricas.
De outro, a transposição dos poemas e fotografias para o formato de vídeo, num filme realizado em parceria com Beto Matuk, onde a experiência alcança sua maior complexidade, com a inclusão dos sons, a ampliação das imagens e a duração, revelando de maneira mais intensa todo o estranhamento que está na base da construção. Estamos falando de um momento de inflexão, em que o poeta olha sua longa relação/obsessão com a cidade sem saudosismo, somos logo avisados na abertura do livro/vídeo, mas como um “exercício de ternura” na “carne da cidade futura”.
A combinação aponta, no fundo, para um mergulho necessário e urgente nas sombras do passado. Não o passado da memória narcísica, inerte, perdido nos devaneios da autoglorificação, mas aquele turvo, borrado, sujo, que teimamos em recalcar na imagem dos casarões. O objetivo do salto é de estabelecer um novo encontro com o passado, sem as fantasmagorias que nos impedem de olhar de frente os olhos do futuro.
Celso carregou na vida a paixão da cidade natal, que demarca em três momentos bem distintos: da infância até os 30, quando criou a sua experiência de São Luís e inscreveu a cidade em si; depois, os vinte anos seguintes passados em São Paulo, quando a cidade ganhou os contornos da memória; por fim, a volta em 2009 e o encontro com uma “terceira cidade”, quando os alicerces da memória são então sacudidos pela crueza de uma realidade na qual “cercas elétricas se engalfinham sobre os muros” e o cenário é de destruição e medo.
O livro/vídeo é sobre este terceiro momento, mas se constrói de maneira que não aparece apenas como presente ou simples evocação do passado, e sim como fantasmagoria, uma projeção do passado no presente. Compõe-se de dois poemas, o poema-título e A Terceira Cidade.
No primeiro, um bordão forte, “o futuro tem o coração antigo”, serve de base para a artilharia diversificada de Celso, alvejando lugares, figuras, situações, de ontem e de hoje, embaralhando as coisas e os tempos, enquanto “os azulejos portugueses encardidos nos observam do alto de sua nobreza rachada”. É a certeza de que “o futuro tem o coração antigo porque a fonte do ribeirão nunca vai secar e os condomínios do renascença morrem de medo”, “porque gullar ainda não escreveu o poema sujo e gonçalves dias não conheceu sabiás empalhados”, “porque o maria celeste ainda queima no cais da sagração” e, principalmente, “porque faustina faustina faustina”, eco que se perde no oco do tempo.
Em pequenos flashs são provocados nomes e imagens emblemáticas da nossa história. Uma história nebulosa, onde o fundador é uma miragem e “ninguém sabe se bequimão é uma força ou uma farsa na forca”. Celso trabalha à vontade em meio aos pedaços, pois sabe que “o futuro tem o coração antigo porque precisamos continuar bebendo na fonte de marcel duchamp”.
No poema A Terceira Cidade, mais longo e propriamente na forma de “poema fotográfico”, vemos todo o impacto da antiga cidade dos azulejos violentada num progresso devastador, mas ao mesmo tempo o anúncio do rompimento do casulo em que a cidade se manteve até então. A abertura não deixa dúvida, “Ó, ilhéus, abris os portais do futuro para o renascimento do maravilhoso”. O recomeço indica que o tempo passou, pois “alguma coisa já não é mais a mesma”. O enredo é simples: “era uma vez uma cidade e a cidade já era”.
Desfilam a devastação e a violência vivenciadas hoje nos quatro cantos da Ilha. São trechos quase sempre estarrecedores, mesmo em sua acidez crítica, expondo as muitas fraturas de uma cidade perdida em meio a ruas engolidas por buracos, a destruição ambiental e a lenta agonia dos casarões, quando “o berro mudo dos cupins devora a pele podre da parede do prédio”, enquanto “uma boca de lobo uiva na camboa”, “jegues abandonados vagueiam em procissão pelas estradas da maioba” e “centenas de carros rosnam na jerônimo de albuquerque”.
Superposição de cenas cotidianas: “ratos mascam chiclets num bueiro de vinhais. baratas brincam de esconde-esconde no calçadão da rua grande. impossível fotografar”. A cidade atulhada de carros, retratados de maneira turva, entupindo as vielas entre os casarões perdidos no tempo, mergulhados na sujeira e no abandono, por trás das placas cheias de cifrões com as promessas nunca cumpridas de reconstituição. Tudo parece distante e, no fundo, totalmente próximo, incômodo. Fantasmas que nos paralisam mesmo quando agonizam.
Momento de morrer, momento de renascer, “a mais bela flor do mundo agoniza. osso duro de morrer”. É também o momento do encontro entre as três cidades, entre as três eras, como um ajuste de contas. Onde se esconde São Luís? Onde se encontra São Luís? Em que visões, em que memórias, em quais sonhos? Terá a antiga cidade dos azulejos virado um grande pesadelo? Ou este foi sempre seu retrato mais fiel, sua imagem mais profunda? Ciente da urgência, Celso sabe que “chega uma hora em que chegou a hora”, “uma hora em que os gatos latem os cães piam e os bambis atiram pra matar”. Para São Luís e os ludovicenses essa hora parece soar. “O centro da cidade é um ciclope se mirando no espelho: narciso em estado terminal”.
Submetida a um processo desordenado e brutal de expansão, sem a resolução mínima de problemas estruturais seculares, chegando mesmo ao ponto de explosão, a cidade afunda a olhos vistos, sob a complacência de uma elite mesquinha apodrecida. “fidumaséguas!” berra o poeta. O fundo do poço em que nos encontramos parece o momento final da cidade na lenda da serpente, evocada no fecho do poema. A hora mítica do despertar, da destruição das fantasmagorias que dominam a nossa cultura. Momento possível, atual, de quebra da adoração vazia dos símbolos em que estamos atolados, seja da cultura ateniense, da cultura popular ou da união hipócrita de ambas executada sob o comando da mídia, em prol de uma apropriação criativa da própria história, pela invenção, pela negação desse futuro perverso vendido como redenção, onde o “turista de pacote clica a tanga da brincante do boizinho de butique”.
Uma obra em processo, que não tem programa, roteiro ou atores definidos, nem precisa, pois começa a se desenhar anarquicamente em experiências descontínuas e dispersas neste momento de cruzamento de gerações, traduzindo-se em movimentações variadas que podem confluir de maneira a criar fendas nas visões canônicas da cultura e da identidade ludovicenses. Nada mais adequado para celebrar a urgência deste “espírito destrutivo”, aliás, que a própria dedicatória feita por Celso naquela noite. Em sua maneira direta, diz apenas: “Chega de boferagem. Viva a fúria!”.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Por que rasguei meu crachá na conferência estadual de cultura




No segundo mandato de Roseana Sarney (1998-2002) como governadora do Estado do Maranhão uma de suas estratégias de construção de uma certa legitimidade social, política e eleitoral advinha de uma vinculação de sua imagem de governadora com as chamadas manifestações da cultura popular maranhense. Essa estratégia era uma consequência direta da nomeação da cidade de São Luis como patrimônio histórico da humanidade pela Unesco em 1997. Dessa forma Roseana se tornou a madrinha número 1 dos bois de matraca da ilha, a foliã número 1 do “resgatado” carnaval de rua de São Luís, além de conceder uma série de benesses e honrarias governamentais ao chamado "povo da cultura". Essa legitimidade se esvaiu nos anos seguintes por razões estritamente políticas e que dizem respeito à um certo desgaste “natural” da imagem da oligarquia Sarney junto à um setor da sociedade ludoviscense mais crítico à realidade social e política do Estado do Maranhão. Esse desgaste em parte explica a derrota eleitoral de 2006 e um governo totalmente arficial retomado na marra e marcado por uma total inoperância programática e adminstrativa.
Se a legitimidade social de Roseana se diluiu nos últimos anos coisa mais difícil foi dissolver os laços clientelísticos que se estabeleceram entre certos grupos da cultura popular e atuação governamental sobretudo na secretaria de cultura com editais e repasses financeiros sem transparências e outros montrengos adminstrativos. Essas relações ajudam à  explicar em parte o que se passou na 3º conferência estadual de cultura realizada entre os dias 11 e 12 de setembro em São Luís. A conferência municipal de São Luís foi positiva, apesar dos problemas, devido em grande parte por que há um diálogo amplo entre os segmentos culturais para elaboração do Plano Municipal de Cultura. Esse processo contudo não inviabiliza a compreensão limitada que determinados segmentos do universo cultural da cidade tratam a discussão sobre a construção de políticas públicas, muitas vezes pensando mais no pequeno, no imediato e no meu quinhão, do que no conjunto da obra em que a vitória de um pode ser a vitória de todos. Com esses avanços e problemas a delegação de São Luís foi a conferência estadual temerosa com a visão deveras bairrista que as delegações das cidades do interior do estado tratam a capital. Temerosa também por saber que os tentáculos clientelísticos da secretaria estadual de cultura se extendem por quase todos os municipios maranhenses.
A conferência foi organizada por duas instâncias, uma comissão organizadora e um comitê executivo e presidida pela secretaria estadual de cultura. Pelo que se depreendeu das falas de integrantes desta comissão o conselho estadual de cultura integrava esta comissão. A conferência foi anunciada em cima da hora, inclusive para os delegados e foi realizada em apenas dois dias. No primeiro dia foi aprovado de maneira muito confusa um regulaento interno. O espaço para discutir as propostas dos mais de 100 municipios que realizaram conferencias foi programado para acontecer em apenas uma manhã, tempo absolutamente insuficiente para discutir com qualidade as propostas. Depois houve a eleição de "50 delegados maranhenses" para a conferência nacional, foco maior das disputas. O regulamento aprovado de maneira confusa estabelecia a divisão das vagas de delegados por divisão do estado em "32 mesorregiões", critério absolutamente desproporcional ao peso dos delegados presentes na conferência. São Luís por exemplo com quase 50 delegados poderia eleger apenas um delegado. Um município com apenas 1 delegado presente poderia também eleger 1 delegado... A falta de transparência no método e nos procedimentos de votação e critérios de escolha de delegados foi motivo de um primeiro protesto meu já no espaço reservado para a eleição de São Luís. Naquele momento as "mesoregiões" estavam, reunidas em salas separadas para proceder escolha dos delegados. Já ali o que percebi era que determinados segmentos estavam satisfeitos com o método das "mesoregiões" por estavam convictos de que conseguiriam eleger um representante seu para o nacional. Nesta reunião São Luís em conjunto não questinou o peso desproporcional com que foi tratado na conferência e parecia se contentar com a promessa de uma vaga que sobraria e que seria destinada para rateio para a mesoregião norte. Tudo com cara de um grande acordão pré-estabelecido desde o início.
Quando a mesa da plenária passou a anunciar os nomes dos “delegados eleitos” anotei as regiões que iam sendo anunciadas e percebi coisas muito estranhas. Regiões que nunca tinha ouvido falar como “imigrantes”. Regiões que elegeram 3, 4 ou 5 delegados. Nomes de delegados eleitos pelo interior mas que residem em São Luís. Neste momento a plenária já estava se esvaziando o cansaço dos presentes era evidente. Apresentei então questionamento e um protesto à maneira como foi conduzido o processo de escolha dos delegados nacionais. Meu protesto se dirigiu à comissão organizadora e ao tal comitê executivo organizador pela (des)organização em geral da conferência e pelo processo de escolha de delegado obscuro e sem transparência.
A comissão organizadora respondeu na pessoa da conselheira estadual de cultua professora Esther Marques que de maneira muito exaltada afirmou que eu não tinha direito de questionar a comissão organizadora. Ora, se um delegado eleito em conferencia municipal não tem direito à questionar qualquer comissão que seja de uma conferencia em que lhe foi delegada a missão de representar um segmento cultural de uma cidade qual é o sentido de haver conferência? Há de se dizer que a professora Esther realizou uma boa condução dos trabalhos em alguns momentos da conferência com comparação com um representante do Minc. Contudo acho temerário a professora se sentir ofendida em caráter pessoal por uma objeção legítima, inclusive referendada em seguida por várias falas, e ainda mais quando minha crítica foi dirigida à um coletivo. Pior ainda é se arvorar do direito de dizer quem tem direito e quem não tem, postura típica de quem preza por valores democráticos e republicanos apenas quando lhe convém. Para minha surpresa, mas nem tanto, as pessoas que insistiram em tornar o debate sobre as regras de votação de delegados na aprovação do regulamento fizeram falas contemporizando e afirmando que o processo foi legítimo, reforçando minhas suspeitas iniciais.
A mesa então desconsiderou minhas objeções e trataram como de menor monta. Então me dirigi para frente da mesa e rasguei meu crachá em protesto pela condução autoritária da mesa e por não considerar as denúncias graves que apresentei sobre o processo de escolha de delegados nacionais. Entre olhares atônitos na plenária tenho certeza que muitos que ali estavam concordavam com meu protestos e com as razões que apresentei mas naquele momento ninguém manifestou concordância ou solidariedade. Para completar um membro da comissão organizadora afirmou ser lamentável um professor tomar aquela atitude. Respondi que se mais professores tomassem atitudes como estas talvez a categoria fosse mais respeitada pelos governantes. Me sentindo isolado naquele momento me retirei do ambiente. Para minha surpresa informações que recebi depois da conferência dão conta de que depois quase todos reconheceram que “o rapaz” estava certo e que parecia que estava tudo manipulado desde o começo. Surgiu então a informação de que sobrara 3 vagas de delegados dos municipios do interior mas que a plenária não poderia decidir sobre elas por que não havia mais quorum. À partir daí rolou um festival de acusações e xingamentos fazendo com que a conferência não fosse finalizada formalmente mas sob um amplo clima de incontestação.
Para finalizar uma constatação irônica: quando iniciei a fala de protesto afirmei que iria fazer o papel de chato e de advogado do diabo mas que era necessária dada minhas objeções quanto à lisura do processo. Ao final réplicas à minha finalizaram invocando o nome do senhor Jesus para desemcapetar o ambiente. Esse é o nível...

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Assembleia Popular discute regularização fundiária no Itaqui Bacanga



Uma das principais problemáticas da Área itaqui Bacanga é a titularizacao de posse dos terrenos dos moradores... Mas também não é apenas o título que queremos.. E foi essa a principal questão levantada na Assembléia Popular. Que foi realizada no dia 17/08/13 na praça do Viva do Anjo da guarda. Com a presença da comunidade e de vários movimentos sociais, vários temas dentro da questão da regularização fundiária foram levantados.

Mas o que é Regularização fundiária.. Vamos entender um pouco :)


Regularização Fundiária é um processo de intervenção governamental, nos aspectos urbanístico, ambiental e fundiário, com o objetivo de ordenar e legalizar a ocupação de áreas urbanas consolidadas, garantindo melhorias na qualidade de vida e fazendo com que a cidade cumpra a sua função social.
Segundo Betânia Alfonsin[1]: “É um processo de intervenção pública, sob os aspectos jurídico, físico e social, que objetiva legalizar a permanência de populações moradoras de áreas urbanas ocupadas irregularmente para fins de habitação, implicando acessoriamente melhorias no ambiente urbano do assentamento, no resgate da cidadania e da qualidade de vida da população beneficiária.”

Uma área com mais de 250mil habitantes... Mais de 58 bairros... E ainda não temos os títulos de posse de nossas terras. E isso é de extrema importância, para termos as assinaturas, podermos vender e comprar terras... E vai muito além disso... Uma área sem qualquer olhar mais político benéfico... E a cada dia que passa nossa cresce sem qualquer ajuda dos governos, ... É preciso que está pequena cidade dentro da capital se torne auto-suficiente sustentável. Para mostrar que não precisamos de esmolas e nem piedade...

Afinal de contas, é daqui que sai grande parte do PIB do estado... Do estado...


Espero que a população conquiste o que é seu por direito.

(texto extraído do blog http://centralitaqui.blogspot.com.br/2013/08/assembleia-popular-regularizacao.html)

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Nota do coletivo de ocupação de câmara sobre simulacro de sessão ocorrida ontem


Coletivo de ocupação da Câmara Municipal de São Luís
Carta aberta à opinião pública

O movimento que ocupou a Câmara Municipal de São Luís entre os dias 23 e 29 de julho de 2013 vem público externar seu repúdio contra os inúmeros atos de violência promovidos pela direção da Câmara Municipal de São Luís e por alguns vereadores com assento naquele parlamento. Ontem, ocorreu uma sessão especial, naquela casa legislativa, fruto da ocupação que fizemos. Queremos deixar claro, inicialmente, que nossa ocupação foi reconhecida pela Justiça como legítima. 

Uma das primeiras e graves violências cometida contra nós foi o pedido de reintegração de posse feito pela direção da Câmara, quando ainda estávamos na ocupação. Ao invés de seguir com o diálogo, os vereadores queriam colocar a Policia Militar para nos expulsar. Mas, o juiz Carlos Henrique Rodrigues Veloso, da 2ª Vara da Fazenda Pública, deu uma sentença onde afirmou o seguinte: “...o movimento é político, de pressão social do legítimo patrão dos políticos: a população e a sociedade, as quais, por força da Constituição Federal, têm legítimos direitos de manifestação e exigência de compromisso social, de ética, moralidade e probidade, de respeito e eficiência, de publicidade e prestação de contas, dentre outros, o que, infelizmente, a população não está conseguindo vislumbrar na classe política...” 

E assim a Câmara foi obrigada a realizar uma sessão especial para nos ouvir. A pauta indicada por nós foi: Transporte público e mobilidade urbana, transparência nas contas públicas e regularização fundiária. Porem, por conta da absoluta truculência protagonizada pelo comando da Câmara Municipal, a sessão teve que ser interrompida e o debate em torno dos problemas da capital maranhense, foi prejudicado, por iniciativa dos próprios vereadores. Lamentável! 

Logo no início da manhã, deste dia 7 de agosto de 2013, os vereadores espalharam um boato, de que a sessão estava cancelada. Era a primeira de uma série de baixarias. Neste mesmo dia 7, algum desavisado que chegasse a Câmara de Vereadores de São Luís, poderia imaginar que estava num espaço controlado por bicheiros e não por parlamentares, tal a quantidade de seguranças à paisana, que mais pareciam capangas. Somada a esta “milícia”, estava uma guarda municipal, que na primeira manifestação de protesto ocorrida - ainda antes da sessão - usou spray de pimenta contra os manifestantes, informação esta deturpada pelo próprio Presidente da Câmara, vereador Isaias Pereirinha, que informou à imprensa que foram “os manifestantes que utilizaram spray de pimenta”. 

Ainda cedo o protesto se deu porque a direção da Câmara ocupou a galeria com seus seguranças e assessores, impedindo a entrada do público que estava desde 8h aguardando a liberação do espaço. Isso gerou muita reclamação, o que atrasou, em cerca de uma hora, a nossa participação na sessão. Após uma negociação, nós entramos em número de 11 pessoas até o plenário e foi garantida a entrada de mais 20 pessoas para a galeria. Ao chegar ao plenário encontramos vários vereadores nervosos, alguns exaltados e outros até histéricos. Quando começamos a usar a palavra, fomos interrompidos em várias ocasiões, demonstrando a falta de respeito dos vereadores daquela casa com o movimento e com as pauta legítima apresentada. 

Em nossas falas começamos a exigir a transparências nas contas da Câmara Municipal e da Prefeitura de São Luís, denunciamos o caos no transporte público da cidade, o descaso dos donos de empresas de ônibus e suas antigas ligações com políticos locais, o repasse de dinheiro público da gestão do prefeito Edivaldo Holanda Júnior para as empresas de transporte que já chegou a R$ 10 milhões, mas que não teve reflexo na melhoria do serviço oferecido. Iniciamos ainda a abordagem sobre os graves problemas de moradia e da falta de regularização fundiária que atingem a nossa ilha e criticamos a omissão e conivência da Câmara de Vereadores diante de tudo isso. Era o início do debate... Contudo, a proposta do Movimento Passe Livre de Tarifa Zero e o debate sobre mobilidade urbana ficou prejudicado pelo encerramento sumário e unilateral da sessão pelos vereadores.

Desacostumados a sofrer pressão da sociedade a maioria dos parlamentares se mostrava cada vez mais nervosa diante de nossas falas. O vereador Sergio Frota, chamado a se explicar sobre um contrato milionário da HCG com a prefeitura de São Luís, se portou de maneira desequilibrada, chamando-nos de baderneiros, arruaceiros, mentirosos e chegando a ponto de fazer considerações racistas a um militante do Quilombo Urbano, uma pessoa que nem chegou a usar a tribuna. 

Enquanto o clima ficava tenso no plenário, na galeria, um manifestante (estudante de mestrado da UFMA), levantava cartazes onde estava escrito: “eu já sabia”, “aí mente!”, “o coletivo me representa”, “não tememos ameaças, a verdade nos defende”, “esse fala bobagens”, “é uma falta de vergonha o teu despreparo”, “mais perdido do que cego em tiroteio”. Pronto! Estes singelos cartazes motivaram a ira de alguns vereadores e do presidente da Câmara, vereador Isaias Pereira, que acionou estupidamente a segurança para que agissem contra o dono dos cartazes e suspendeu a sessão posteriormente. 

Sendo assim, por conta da intolerância, da disposição de impedir a liberdade de expressão e da ação violenta dos seguranças, houve grande tumulto na galeria. Várias pessoas foram agredidas! Na confusão, um segurança se aproveitou da situação e segurou, ostensivamente, o seio de uma manifestante (professora da UEMA), o que causou ainda mais indignação nos manifestantes. 

Em pouco mais de três horas, a Câmara de Vereadores de São Luís, através de alguns seus diferentes integrantes, protagonizou atos de racismo, violência contra mulher, truculência, autoritarismo, censura a liberdade de expressão, intolerância as críticas e ao debate honesto e franco. Diante do desarranjo provocado por eles mesmos, alguns vereadores perguntavam: “cadê as lideranças que não conseguem conter as pessoas”. Não existem lideranças, vereadores! O que existe é uma justificável indignação coletiva! 

O que vimos ontem na Câmara de Vereadores de São Luís é um reflexo da política maranhense, marcada por uma estrutura oligárquica, que se mantém no poder através do patrimonialismo e do brutal abuso de poder político e econômico. Por uma feliz coincidência, esta sessão na Câmara, com a nossa participação, ocorreu no mesmo dia em que o Procurador Geral da República deu parecer favorável a cassação do mandando da governadora do Maranhão, Roseana Sarney, exatamente por abuso de poder político e econômico. São práticas como estas, usada por inúmeros detentores de mandato em nosso estado, que expõe a crise de representatividade que hoje assola o Brasil. É a mesma crise que tem levado milhões de pessoas a ruas do nosso país. 

Por fim, lamentamos a postura subserviente de amplos setores da imprensa conservadora do Maranhão, que com sua tradição de servir ao poder político e econômico, reproduziu o discurso mentiroso propagado pela Câmara. Diante de tudo isso, aqui da ilha de São Luís, a nossa decisão está tomada. Vamos, a partir de assembleias populares, denunciar e pressionar o poder público no Maranhão. Temos pautas a exigir e a violência institucionalizada não vai nos intimidar!
São Luís, 08 de agosto de 2013


Coletivo de Ocupação da Câmara de São Luís